Sem sair dos teus olhos

Atualizado: 4 de jun. de 2021




Levantou silenciosamente. Caminhou nas pontas dos pés e foi até o closet. Trocou o pijama de malha gasto e confortável por um agasalho de moletom gasto e confortável. Voltou ao quarto. Ele estava todo enrolado no edredom e manta. Só aparecia um pedaço da lateral do rosto e testa. Ela o beijou, ternamente.


Saiu cuidando de cada passo, ao pegar as chaves, ao abrir a porta da frente, ao dar a ré no automóvel. Foi até a padaria, pegar pães quentinhos.


Estacionou o carro debaixo da goiabeira. Abriu a porta da cozinha, deixou os pães sobre a mesa. Foi até o quarto. Ele ainda dormia. De barriga pra cima, ressonava. Ela se enfiou de agasalho sob o edredom, abraçou-o. Ele gemeu e a abraçou com amor.


Dormiram um pouco mais juntos.

Ela enroscou as pernas nas pernas dele, os braços em todo o tronco... ele fez o mesmo. Espreguiçaram-se, corpo com corpo.


Ele enfiou a mão direita por dentro do moletom, por baixo da camiseta de malha, até chegar aos seus seios. Acariciou os mamilos que ficaram logo rígidos. Ela gemeu. Encostou as nádegas no quadril dele. Ele estava excitado.


Viraram-se de frente. Beijaram-se longamente, fazendo brincadeiras com as línguas... ora com as pontas, ora com elas inteiras dentro da boca do outro. Sugavam-se.


Foram tirando sem pressa as roupas um do outro. Beijando cada parte do corpo descoberto. Gemeram juntos quando sentiram o encontro dos corpos nus, das peles quentes. A dela um pouco mais fria. Os seios encontrando o peito, as coxas se arrastando, o abraço... as mãos deslizando.


Ele segurou o rosto dela e olhando dentro dos olhos disse: Te amo!, e beijaram-se novamente com paixão. Ficaram se beijando de olhos abertos, enquanto os corpos se acoplavam naturalmente. Ela abriu as pernas e ajudou com as mãos a penetração. Faziam movimentos aderentes e profundos, num ritmo circular e lento. Gemiam, suspiravam, de olhos abertos... e se beijavam. Mordiscavam os lábios, chupavam suas línguas. A língua dele imitava os movimentos do seu sexo. Penetrava a boca e penetrava o corpo.

Sem sair um dos olhos do outro, gozaram, segurando suas faces, mergulhando em seus infinitos. Transpassaram-se.


Dormiram abraçados por mais meia hora pelo menos. Ele levantou, ajeitou as cobertas sobre o corpo dela, fazendo um ninho, espremeu todo o seu corpo, deitando sobre ela, sem soltar todo o seu peso, esmagando-a de amor.


Tomou uma ducha e vestiu um quimono. Foi pra cozinha, cortou algumas frutas, passou o café, ferveu o leite. Cortou dois pãezinhos e passou manteiga. Calçou o chinelo da rua e foi até o jardim. Colheu uma flor amarela, bonita.


Levou o café no quarto.


Apoiou a bandeja no criado-mudo. Desceu por dentro das cobertas e passou as mãos por suas nádegas, costas, mordeu-lhe a orelha.


Sentaram-se na cama e tomaram vagarosamente o café. Ela agradeceu a flor, agradeceu as frutas, agradeceu o pão, agradeceu o instante, o amor dele, com ele... nele.

Retornaram a bandeja ao criado-mudo e voltaram a se beijar. Ele sentado, ela sentada sobre ele, nua. Abriu o quimono, beijou-lhe ardentemente, lambeu-lhe os mamilos, lambeu-lhe o umbigo, lambeu-lhe o sexo, fez sexo oral nele, depois, sentou-se sobre ele, e feito uma deusa hindu, Sita, cavalgou Rama, em pleno domínio de seu corpo, feminilidade e doçura, enquanto ele virava os olhos e respirava ofegante.


Embebida de amor, ela recitava: “Tanto se tratando de uma vida de ascetismo, como de um eremita, quanto de uma vida de glórias, quero estar contigo. Seguindo teus passos, não pode assaltar-me fadiga alguma. Os arbustos, as ervas e os espinhos parecer-me-ão, em tua companhia, tão suaves ao tato como a seda ou a pele dos antílopes. O pó de um vendaval que chegue a cobrir-me será, para mim, amor meu, pó precioso de sândalo. Contigo será o céu, sem ti, o inferno. Tenho certeza de que serei completamente feliz ao teu lado.” E novamente gozaram, gozaram, gozaram...


Uma moeda cai ao chão rolando pra debaixo do balcão. A moça da padaria gentilmente lhe alcança o troco. Ela volta pra casa, levando os pães e uma flor amarela nos cabelos.




Texto de Denise Patrício. Citação extraída do texto clássico Ramayana. Em Saraswati, Aghorananda. Mitologia Hindu. — São Paulo: Madras, 2006. Imagem da obra de Lygia Clark – Óculos, de 1968 disponibilizada em arteref.com.

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